Há um descompasso interessante no centro de The Early Spring. Shang Zhitao (Sun Qian) leva quase tudo ao pé da letra; Luan Nian (Jing Boran) parece incapaz de dizer exatamente aquilo que pensa. É dessa incompatibilidade que o novo C-drama da Netflix tira seus melhores momentos nos quatro primeiros episódios, construindo um romance que convence menos pelos grandes acontecimentos do roteiro e muito mais por olhares, provocações e pequenos gestos de cuidado. A série é um romance de ambiente de trabalho protagonizado por Jing Boran e Sun Qian.
É uma escolha especialmente importante porque Luan Nian não causa uma boa primeira impressão. Chefe experiente em uma grande empresa de publicidade, ele praticamente descarta Zhitao antes mesmo que a jovem consiga terminar sua entrevista.
A falta de experiência basta para que ele decida que aquela candidata provavelmente não durará muito tempo ali. Quando ela finalmente consegue a vaga, graças à insistência de outros profissionais, Luan Nian continua tratando sua saída como uma questão de tempo.
Zhitao poderia existir apenas como contraponto adorável ao homem frio, mas Sun Qian encontra algo mais interessante na personagem. Sua ingenuidade não vem acompanhada de passividade.
Ela aceita tarefas demais, tenta agradar colegas e ainda não compreende completamente as regras não escritas de um ambiente competitivo, mas há uma teimosia discreta no modo como continua avançando. Quando Luan Nian sugere que procure outro emprego, ela ouve. Só não vai embora.

Essa insistência é importante porque The Early Spring não entrega à protagonista uma competência milagrosa para provar rapidamente que todos estavam errados. Zhitao erra, aprende e melhora. Em uma viagem de trabalho, é sua iniciativa que ajuda a equipe a chegar a um diretor essencial para fechar uma negociação. Mais tarde, quando começa a ser pressionada por demandas vagas e alterações intermináveis, é Luan Nian quem lhe ensina a documentar tudo e transformar registros em uma forma de proteção profissional.
A mudança parece pequena, mas é provavelmente a mais relevante para entender o personagem de Jing Boran. O homem que inicialmente não considerava Zhitao digna de orientação passa a ensiná-la.
Luan Nian continua ríspido e deliberadamente difícil, porém o roteiro aos poucos mostra que existe capacidade por trás da arrogância. Ele entende negociações, percebe jogos de interesse antes dos outros e, principalmente, começa a reconhecer que a funcionária que julgou tão rapidamente merece uma segunda avaliação.
É aí que a química entre Jing Boran e Sun Qian encontra seu melhor ritmo. Ele constrói Luan Nian na contenção, deixando pequenas mudanças escaparem por um olhar ou um sorriso que desaparece rápido demais; ela faz Zhitao reagir com uma sinceridade quase desarmante.
Quando ele tenta emprestar seu casaco porque ela está com frio, ela entende que deve simplesmente segurá-lo. Quando Luan Nian explica que responder a um homem que está solteira pode soar como uma abertura, Zhitao pergunta imediatamente se a mesma regra vale para ele.
Ela não está tentando vencê-lo. É justamente por não perceber o jogo que consegue desmontá-lo.

O problema aparece quando a série parece deixar de confiar nessa simplicidade. No terceiro episódio, um trabalho no interior termina em chuva, deslizamento e uma situação de vida ou morte.
Logo depois, o passado amoroso de Luan Nian retorna na forma de uma ex-namorada emocionalmente descontrolada e um confronto envolvendo uma faca. Para uma relação que estava avançando tão bem através de pequenas mudanças, são atalhos dramáticos grandes demais e próximos demais.
O deslizamento pelo menos evita transformar Zhitao em alguém esperando pelo resgate. Luan Nian sai para procurá-la, mas é ela quem aparece quando ele fica preso no carro e ajuda a quebrar o vidro para tirá-lo dali.
Os dois salvam um ao outro, e a experiência cria uma intimidade que seria difícil conquistar em circunstâncias normais. Funciona emocionalmente; só não é difícil perceber a mão do roteiro empurrando os protagonistas para mais perto.

Curiosamente, o melhor resultado dessa sequência acontece depois que o perigo acaba. No hospital, Luan Nian observa Zhitao dormir e percebe que ela ainda reage ao medo vivido horas antes.
Ele cuida dela quando ninguém está olhando. Mais tarde, lembra que, durante o acidente, Zhitao havia falado sobre a vontade de voltar a comer o peixe preparado pelo pai e a leva para pescar.
Ele não explica a escolha. Não transforma a lembrança em declaração. Apenas faz.
É provavelmente o gesto mais romântico dos quatro episódios, justamente porque The Early Spring resiste à tentação de sublinhá-lo.

O quarto episódio torna esse interesse mais difícil de esconder. Em um bar, Luan Nian encontra Zhitao bebendo com outro homem e, depois de inicialmente recusar o convite dos amigos para cantar, muda de ideia ao vê-la.
Do outro lado do salão, Zhitao fica hipnotizada pela apresentação. Pela primeira vez, parece olhar para o chefe sem o filtro do trabalho entre eles.
O ciúme completa o serviço quando Luan Nian percebe que ela, já bêbada, está prestes a ir embora acompanhada. Ele intervém e apresenta Zhitao como sua namorada. A preocupação com a segurança dela oferece uma desculpa conveniente, mas não o bastante para esconder o que a série já vinha insinuando.
Ao levá-la para casa, ainda precisa ouvir uma Zhitao sem qualquer filtro sugerir que, em outros tempos, salvar a vida de alguém seria motivo suficiente para receber essa pessoa em casamento.
É uma cena assumidamente romântica, mas chega depois de quatro episódios em que a relação ganhou contexto suficiente para sustentá-la.
The Early Spring funciona melhor justamente quando lembra que não precisa fazer muito. Jing Boran e Sun Qian já carregam a série nas pausas, nas respostas atravessadas e naquela transformação quase imperceptível de duas pessoas que começam se avaliando muito mal e terminam prestando atenção demais uma na outra. O ambiente profissional também dá a Zhitao uma trajetória própria, algo essencial para evitar que sua evolução seja reduzida ao fato de conquistar o chefe.
O melodrama ainda ameaça desequilibrar essa combinação. Em apenas quatro episódios, a série já colocou seus protagonistas diante de um desastre natural, hospitalizações e uma situação extrema envolvendo uma ex. Se continuar aumentando o volume sempre que precisar avançar emocionalmente, pode acabar desperdiçando justamente aquilo que faz melhor.
Por enquanto, porém, Jing Boran e Sun Qian são bons o bastante para fazer os clichês parecerem menos gastos. The Early Spring não precisa que Shang Zhitao e Luan Nian estejam à beira da morte para convencer que alguma coisa está acontecendo entre eles. Um casaco mal interpretado, um conselho dado no escritório ou um prato que ele lembrou que ela queria comer dizem muito mais.
Quatro episódios ainda são pouco para saber até onde esse equilíbrio vai se sustentar. São suficientes, no entanto, para deixar uma certeza: quando The Early Spring baixa o tom e permite que seus protagonistas simplesmente ocupem o mesmo espaço, o romance já não precisa de nenhum empurrão do roteiro para funcionar.

