Largou a ciência de dados, alugou uma van e rodou 15 cidades: ‘Teatro de Rua’ estreia na Netflix

Dirigido por Tanmaya Shekhar, longa indiano usou teatro de rua e 25 vídeos nas redes para furar a bolha e alcançar o streaming.

Largou a ciência de dados, alugou uma van e rodou 15 cidades: ‘Teatro de Rua’ estreia na Netflix
Cena de Teatro de Rua, filme independente indiano dirigido por Tanmaya Shekhar, disponível na Netflix. (Foto: Divulgação/Netflix)

Os créditos iniciais de Teatro de Rua já entregam o tom: “How to Enter Bollywood apresenta”. A frase é uma piscadela para os 25 vídeos curtos que o diretor Tanmaya Shekhar e a coprodutora Molshri espalharam nas redes para fazer barulho. Sem grandes atores, sem estúdio por trás, a dupla alugou uma van e percorreu 15 cidades do norte da Índia promovendo o longa com apresentações de teatro de rua pelo caminho.

Funcionou. Lançado em fevereiro em cerca de 40 salas — Mumbai, Indore, Bhopal —, o filme teve sessões esgotadas no fim de semana de estreia. Agora, desde 24 de abril, está no catálogo da Netflix.

A trama acompanha dois estudantes de engenharia recém-expulsos. Para voltar à universidade, eles precisam matricular cinco crianças de uma favela em uma escola. Acostumados a debater questões sociais no teatro universitário, os protagonistas se deparam com a complexidade real do trabalho infantil. O filme contrasta dois mundos: a faculdade de elite e uma comunidade sem acesso ao básico.

O elenco é de estreantes: Molshri, Shivang Rajpal, Danish Hussain e Nirmala Hazra — esta última, descoberta em exercícios de improvisação em favelas. “Ela demonstrou uma capacidade emocional notável”, conta Tanmaya.

Dois jovens atores em uma rua de terra batida, cercados por crianças sentadas no chão, com faixas e cartazes coloridos ao fundo.
Cena de Teatro de Rua, filme independente indiano disponível na Netflix. (Foto: Cena/Netflix)

Ex-cientista de dados nos Estados Unidos, Tanmaya cresceu no campus do IIT Kanpur e diz que o roteiro veio da observação direta. Numa visita à família, acompanhou a mãe dando aulas para crianças de uma comunidade vizinha. “Observei o forte contraste entre duas Índias”, explica.

Essa vivência está nos protagonistas. Molshri faz uma jovem extrovertida que canaliza ideias políticas pelo teatro; Shivang interpreta um perfil introvertido, dividido entre as expectativas da família e a própria identidade. O filme cutuca o ativismo performático sem rodeios. “Conheço pessoas que debatem problemas sociais exclusivamente pelas redes sociais”, diz o diretor.

O orçamento veio de cerca de 35 investidores individuais — ex-alunos do IIT e amigos. As gravações começaram com essa verba inicial, e novas adesões foram entrando conforme o material bruto circulava. O custo total, incluindo empréstimos, fechou em 25 milhões de rúpias.

A etapa mais difícil foi a distribuição. As plataformas de streaming sinalizaram que um filme sem atores conhecidos não tinha apelo comercial. Quem destravou o nó foi Imtiaz Ali. O diretor aprovou o corte final, acionou contatos e participou de um vídeo promocional — o que gerou a visibilidade que faltava. A equipe então bancou o lançamento nos cinemas por conta própria. O desempenho comercial facilitou a negociação com a Netflix.

Van estacionada em uma estrada rural com montanhas ao fundo, integrantes da equipe descarregando equipamentos de filmagem.
A equipe de Teatro de Rua percorreu 15 cidades do norte da Índia para divulgar o filme antes da estreia. (Foto: Divulgação/Netflix)

Sobre a mudança de carreira, Tanmaya não se arrepende. “Pedi demissão há dez anos. O cinema sempre foi uma inclinação natural, mas em Kanpur eu não tinha referências profissionais na área. Nos Estados Unidos, ver jovens optando por carreiras artísticas serviu de impulso.”

Antes de Teatro de Rua, ele dirigiu o curta Scenes from a Pandemic. Agora, prepara um novo roteiro. Molshri vai levar o material ao Festival de Cannes pelo coletivo Women in Film.

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