Comecei My Royal Nemesis sem expectativa. O título parecia ser apenas mais um romance padrão no catálogo da Netflix, útil apenas para curar a ressaca deixada por A Coroa Perfeita. Mas o quinto episódio mudou o cenário e assumiu o controle da semana.
O grande acerto não foi uma reviravolta ou um avanço drástico na história. Na verdade, a trama principal quase não andou. O brilho da hora foi abraçar o absurdo e focar na construção dos personagens.
O roteiro vai de zero a cem muito rápido. O espectador recebe um soco no estômago com o passado da protagonista — que foi vendida como escrava aos 12 anos de idade. No minuto seguinte, a direção joga o casal principal em um elevador com emojis flutuando na tela para ilustrar o estado emocional de ambos.
Tinha tudo para ficar piegas e artificial. Mas a direção mistura o dramalhão pesado com a comédia pastelão em um equilíbrio que simplesmente funciona.
O passado bate na porta (de novo)

A grande sacada do roteiro é o looping temporal de 300 anos. A protagonista carrega a memória de tudo o que sofreu na vida passada. É exatamente por isso que ela construiu um muro ao redor de si.
Quando ela diz que quer “proteger o próprio coração”, não é frescura para criar conflito falso. Ela provavelmente viu a versão antiga do protagonista (o homem mascarado) morrer por ela. Ela já viveu o luto. E não está a fim de repetir a dose.
O problema é que tudo está se repetindo. O constrangimento no set de filmagem é quase um espelho exato do que ocorreu no palácio séculos atrás. O primo, que era o rei na vida passada, continua rondando e forçando aproximação. A sensação imediata é a dúvida: isso é o destino agindo por conta própria, ou existe alguém manipulando as peças para forçar essa repetição histórica?
É difícil engolir que ela seja a única com as memórias intactas. Aquele primo faz a linha de bom moço agora, mas a máscara dele inevitavelmente vai cair. E não dá para ignorar a xamã e a avó, que do nada não reconheceu a própria neta no último capítulo. Há muita ponta solta para amarrar.
A guerra fria do casal principal

Até aqui, os dois estão operando na racionalidade pura. Ele faz uma declaração de amor com a mesma frieza de quem senta à mesa para negociar um contrato de negócios. Ela, por sua vez, rejeita a oferta e o humilha com a exata mesma intensidade.
É por isso que as interações são tão boas. Ele toma um fora e vai parar no médico devido ao pico de estresse, ignorando o diagnóstico do profissional apenas para reclamar da rejeição que acabou de sofrer.
Apesar de toda essa resistência blindada, a sintonia entre eles é óbvia. Há uma cena excelente que prova a convergência de pensamento: ela veste a roupa de época e diz “estou me sentindo bem, pronta para a guerra”. Ele veste o terno corporativo e solta a exata mesma frase sobre conquistá-la. Eles lutam por coisas diferentes, mas são estruturalmente iguais.
O que vai quebrar essas defesas é o momento em que a emoção atropelar a razão. A série já antecipou como isso vai acontecer na caótica cena do avião: ele desmaia, ela dá um tapa na cara dele, joga água, e os dois levam um choque elétrico juntos. É uma metáfora zero sutil para o baque que é se apaixonar.
My Royal Nemesis é o tipo de dorama com personagens problemáticos e um romance caótico que consome o seu tempo sem você perceber. Se a química continuar crescendo dessa forma, o caminho natural é ver esses dois finalmente queimando o karma de três séculos para conseguirem, enfim, alguma paz.

