O diretor Suresh Triveni tenta executar duas tarefas simultâneas em Filhas, Deu Ruim!: construir uma crítica social relevante e entregar uma comédia de apelo massivo. Na prática, o acúmulo de funções compromete ambos os objetivos e gera uma narrativa irregular.
A premissa parte da literalização de um insulto de rua comum na Índia. O roteiro questiona o que aconteceria se as mulheres frequentemente usadas como alvo de xingamentos misóginos se unissem para esconder um cadáver e, por consequência, expor o privilégio patriarcal. A estrutura narrativa segue a fórmula de produções como Darlings e Haseen Dillruba, onde mulheres comuns recorrem ao crime como válvula de escape em uma sociedade opressora.
A vigilância na Adarsh Colony
O longa é ambientado em um conjunto residencial ironicamente batizado de Adarsh Colony. O condomínio funciona como uma representação física da vigilância social. A rede de vizinhos, liderada por Charitra Kumar Gupta (Ravi Kishan), atua como um sistema focado em monitorar e destruir a reputação de uma mulher solteira e mãe solo.
A roteirista Pooja Tolani acerta ao focar na desconstrução da imagem da “mãe sagrada”. A personagem Rekha/Maa (Madhuri Dixit) abandona o ideal clássico do sacrifício materno para operar sob o instinto prático de autopreservação, recusando-se a seguir as normas locais. O núcleo central é completado por suas filhas: Jaya (Triptii Dimri) atua como a defensora sensata da ordem doméstica, enquanto Sushma (Dharna Durga) representa a geração hiperconectada e distante emocionalmente.
- Das Cinzas ao Trono: Resumo de Todos os Episódios e Final Explicado
- My Royal Nemesis: Resumo de Todos os Episódios e Final Explicado

Conflito de tons e atuações irregulares
O principal problema da obra reside na sua execução. A direção opta por um tom satírico e exagerado que funciona em esquetes isoladas, mas prejudica a imersão na história principal. O filme sofre com o excesso de autoconsciência: o texto sinaliza repetidamente ao público que está subvertendo clichês familiares, o que esvazia a força da crítica. A comunidade retratada soa mais como um cenário esquematizado de programa de auditório do que como um bairro real.
A diferença de tom entre o elenco acentua a fragmentação. Madhuri e Triptii atuam em um registro próximo ao de uma sitcom, apoiado em suspiros forçados e falas sincronizadas. Em contrapartida, Shardul Bhardwaj e Geetanjali Kulkarni entregam atuações realistas e contidas, como se integrassem uma produção totalmente diferente.
Além disso, Madhuri assume um papel moralmente ambíguo, mas a execução soa como um exercício calculado que não consegue mascarar sua persona de estrela. Ravi Kishan, frequentemente eficaz nesse tipo de papel, acaba subutilizado e reduzido a um mero dispositivo de roteiro, desperdiçando o potencial de embate direto com a protagonista.
Direção e ritmo
Para compensar a falta de progressão narrativa no segundo ato, Triveni tenta forjar uma urgência artificial, acelerando diálogos e aumentando o tom de voz das interações. A tática de edição não resolve a estagnação do ritmo.
O ato final permite que o peso dramático de Madhuri assuma a linha de frente, elevando momentaneamente a produção a um estudo funcional sobre limites e sobrevivência. Contudo, essa mudança tardia é insuficiente para corrigir as falhas estruturais de uma comédia sombria que se preocupa mais em exibir a própria ousadia do que em desenvolver seus personagens de maneira crível.
Ficha Técnica
| Informação | Detalhes |
| Título | Filhas, Deu Ruim! |
| Direção | Suresh Triveni |
| Elenco | Madhuri Dixit, Triptii Dimri, Dharna Durga, Ravi Kishan, Geetanjali Kulkarni, Shardul Bhardwaj, Arunoday Singh |
| Duração | 127 minutos |
| Onde assistir | Netflix |

