O que primeiro chamou atenção não foi o nome de Yang Yang no cartaz, nem o fato de a Daylight Entertainment estar se aventurando no wuxia pela primeira vez. Foi o trailer.
Em pouco mais de dois minutos, o que se vê são corpos caindo com peso, lâminas que parecem ter consequência, chuva que molha, becos que sufocam. Tem uma crueza ali que destoa do padrão visual dos últimos anos — e talvez seja exatamente isso que o público chinês estava esperando sem saber.
A prévia acumulou mais de 11 milhões de visualizações antes mesmo de a data de estreia ser anunciada. As reservas no Youku passaram de 3 milhões com semanas de antecedência. Não é hype artificial de estúdio: é expectativa real por um tipo de drama que a indústria chinesa vinha evitando.

A série estreia em 13 de maio no canal CCTV-8, com exibição simultânea no Youku para a China e no Disney+ para mercados internacionais. No Brasil, o Viki confirmou que vai disponibilizar os episódios legendados no mesmo dia. São 37 episódios, aproximadamente 45 minutos cada.
A história parte de um personagem que qualquer chinês reconhece de cor: Zhan Zhao, o “Gato Imperial”, imortalizado no clássico Os Três Heróis e Cinco Justiceiros como o guarda-costas destemido do juiz Bao. Só que aqui ele não está à sombra de ninguém. A trama o coloca como alvo de uma caçada implacável depois que um velho amigo lhe entrega provas de uma conspiração envolvendo o príncipe de Xiangyang — e isso é só a faísca.
Wuxia artesanal, na prática
É nesse ponto que a série começa a ficar interessante de verdade. A produção não esconde que está apostando no que chamam de “wuxia artesanal”: coreografias pensadas para cada personagem, ausência quase total de efeitos digitais nas lutas, locações reais e figurinos com textura.
Yang Yang já havia deixado claro em entrevistas que queria se afastar de papéis excessivamente polidos. Treinou combate com espada por meses antes das filmagens e insistiu em fazer as cenas de ação sem dublê. O resultado, pelo menos no material divulgado até agora, é um tipo de fisicalidade que os doramas de artes marciais foram perdendo conforme os CGI foram ficando mais baratos.

O trio que vai carregar a história
Mas produção caprichada não sustenta 37 episódios sozinha. O que realmente está alimentando o burburinho é a dinâmica entre os três protagonistas.
Zhan Zhao, interpretado por Yang Yang, é o herói reticente — alguém que já viu demais e que se move mais por obrigação moral do que por idealismo juvenil. Ao lado dele, Huo Linglong (Zhang Ruonan) funciona como contraponto: herdeira de um clã poderoso, foge de um casamento arranjado e acaba esbarrando nesse estranho de capa preta que parece saber mais do que deveria. A relação entre os dois, pelo que indicam os relatos de quem leu o romance original de minifish, não é daquelas que se resolvem rápido. Começa com desconfiança mútua, passa por aliança forçada e vai ganhando camadas conforme as investigações apertam.
O terceiro vértice é Bai Yutang, o “Rato de Pelos Dourados”, vivido por Fang Yilun. Nos livros clássicos, ele é o arquétipo do rebelde impetuoso que desafia autoridades e age por conta própria. Na série, essa energia serve tanto para criar atrito com a rigidez de Zhan Zhao quanto para injetar um humor mais ácido em meio à escuridão geral da trama. Os fãs já começaram a fazer campanha nas redes sociais apostando que a química entre o trio será o grande termômetro do sucesso.
O risco que a produção assumiu
Há um risco real aqui, e a produção sabe disso.
O roteiro de Wu Tong — que já trabalhou em A Jornada de Ming Lan e A Longa Noite — escolheu um caminho que não admite meio-termo. A série se propõe a ser wuxia “raiz”, o que significa que será inevitavelmente comparada a referências como Nirvana in Fire e aos trabalhos anteriores da própria Daylight Entertainment. Qualquer escorregão no ritmo ou na lógica das investigações será imediatamente apontado.

Por outro lado, uma parcela considerável da audiência está torcendo exatamente para que isso não aconteça — e não só por carinho ao elenco. O que parece estar em jogo é algo maior: a sensação, compartilhada por muita gente que cresceu assistindo wuxia nos anos 1990 e 2000, de que o gênero foi se diluindo em tramas românticas de fantasia que usam a estética marcial como moldura vazia.
As Aventuras de Zhan Zhao promete o contrário: que o centro é a investigação, que as lutas têm peso narrativo, que a sujeira dos becos é tão importante quanto o brilho dos palácios. Se vai cumprir, a gente começa a descobrir dia 13 de maio.
